Os meningiomas são os tumores intracranianos mais comuns em adultos, representando cerca de 35% de todos os tumores primários do sistema nervoso central. A maioria é benigna, de crescimento lento, mas cerca de 10% apresentam comportamento agressivo, classificados como meningiomas atípicos (grau II) ou malignos/anaplásicos (grau III), conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Essas variantes malignas se distinguem por alta taxa de recidiva local, infiltração de estruturas adjacentes e proliferação celular acelerada, exigindo uma abordagem terapêutica mais complexa e multidisciplinar.
Entendendo os meningiomas malignos
Os meningiomas malignos derivam das células aracnoides das meninges, mas diferem das formas benignas por apresentarem características histológicas como mitoses frequentes, necrose tumoral e invasão cerebral direta.
Pacientes podem apresentar sintomas semelhantes aos meningiomas típicos — cefaleia, crises convulsivas, fraqueza ou alterações cognitivas —, mas a evolução costuma ser mais rápida e o risco de recorrência após o tratamento é significativamente maior.
O papel da cirurgia na era da tecnologia
A ressecção cirúrgica completa (Simpson grau I) continua sendo o principal fator prognóstico. No entanto, devido à infiltração cerebral ou à localização próxima de estruturas críticas (seio cavernoso, nervos cranianos, vasos principais), a ressecção total nem sempre é possível.
A incorporação de tecnologias avançadas vem aumentando a segurança e a eficácia das cirurgias:
- Neuronavegação e ressonância intraoperatória: permitem ao cirurgião planejar e confirmar a extensão da ressecção com precisão milimétrica.
- Monitorização neurofisiológica: preserva funções motoras e sensoriais em tumores próximos de áreas eloquentes.
- Fluorescência intraoperatória (5-ALA, fluoresceína): auxilia na diferenciação entre tumor e tecido normal.
- Microcirurgia de alta definição: possibilita maior controle da hemostasia e dissecação delicada de vasos e nervos.
Um estudo recente demonstrou que o uso combinado de neuronavegação e ressonância intraoperatória aumenta em 20% as taxas de ressecção completa em meningiomas complexos, sem elevar a morbidade cirúrgica.
Radioterapia e radiocirurgia: armas complementares
Mesmo após uma cirurgia bem-sucedida, a radioterapia adjuvante tem papel essencial no controle local da doença, reduzindo significativamente a taxa de recidiva.
- Radioterapia fracionada: indicada após ressecção subtotal ou em casos com invasão dural e óssea.
- Radiocirurgia estereotáxica (SRS): ideal para recidivas ou pequenos focos residuais, especialmente em locais de difícil acesso.
Estudos mostram que a radiocirurgia oferece controle tumoral superior a 85% em 5 anos em meningiomas malignos residuais, com baixo risco de complicações.
Novas fronteiras: terapias-alvo e imunoterapia
Nos últimos anos, a pesquisa em biologia molecular dos meningiomas revelou alterações genéticas específicas — como mutações em NF2, TERT, SMO, AKT1 e TRAF7 — que podem orientar terapias personalizadas.
Os inibidores de vias de sinalização, como os inibidores de mTOR (everolimo) e de VEGF (bevacizumabe), vêm sendo estudados como adjuvantes em casos inoperáveis ou recidivantes.
Além disso, estudos em andamento investigam o papel da imunoterapia, com agentes que estimulam a resposta imune antitumoral, como nivolumabe e pembrolizumabe, com resultados promissores em subgrupos de pacientes com expressão aumentada de PD-L1.
O futuro do tratamento
A tendência atual é integrar cirurgia de alta precisão, radioterapia moderna e terapias moleculares em protocolos personalizados. O uso de inteligência artificial (IA) e modelos radiômicos também tem avançado na predição de comportamento tumoral e resposta terapêutica, permitindo que decisões clínicas sejam cada vez mais individualizadas.
Em centros de referência, o manejo dos meningiomas malignos é conduzido por equipes multidisciplinares, envolvendo neurocirurgiões, oncologistas, radioterapeutas e geneticistas. O objetivo é oferecer tratamentos curativos quando possível e controle de longo prazo quando a cura não é factível.
Conclusão
Os meningiomas malignos, antes considerados intratáveis em muitos casos, hoje têm perspectivas muito mais favoráveis graças à tecnologia cirúrgica, radioterapia de precisão e novas terapias biológicas.
O desafio continua sendo o diagnóstico precoce, a cirurgia segura e o acompanhamento a longo prazo — pilares que garantem melhor sobrevida e qualidade de vida aos pacientes.
Referências
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