Tratamento Cirúrgico da Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII): Quando o Neurocirurgião é Fundamental

A hipertensão intracraniana idiopática (HII), também conhecida como pseudotumor cerebral, é caracterizada pelo aumento da pressão intracraniana sem lesão estrutural que justifique o quadro. Embora a maioria dos pacientes responda ao tratamento clínico — principalmente com perda de peso e uso de acetazolamida — uma parcela desenvolve ameaça real à visão ou não alcança controle adequado apenas com medicamentos. É nesses cenários que a atuação do neurocirurgião se torna decisiva.

Quando indicar cirurgia na HII?

A cirurgia está indicada nos seguintes casos:

  • Progressão do déficit visual apesar de tratamento clínico otimizado; 
  • Papiledema grave e persistente; 
  • Cefaleia incapacitante e refratária; 
  • Intolerância ou contraindicação às medicações. 

O objetivo é reduzir a pressão intracraniana e preservar a função visual.

Principais opções cirúrgicas

1. Derivação do líquido cerebrospinal (LCR)

A derivação ventriculoperitoneal (DVP) e a derivação lomboperitoneal (DLP) são técnicas clássicas, que desviam o excesso de LCR para a cavidade abdominal, onde é absorvido.

  • Vantagens: controle eficaz da pressão intracraniana, melhora da cefaleia e estabilização do papiledema. 
  • Limitações: risco de obstrução do sistema, infecção e necessidade de revisões cirúrgicas ao longo da vida.
    Estudos mostram que até 50% dos pacientes podem necessitar de revisões em cinco anos, mas ainda assim a técnica permanece como um dos pilares no manejo cirúrgico. 

2. Fenestração da bainha do nervo óptico (FBNO)

Nesta técnica, o neurocirurgião cria uma pequena abertura na bainha que envolve o nervo óptico, permitindo o escoamento do LCR e reduzindo o edema no disco óptico.

  • Indicação principal: casos em que a perda visual é o sintoma predominante. 
  • Vantagens: efeito direto sobre a visão, podendo preservar ou até melhorar a acuidade visual. 
  • Limitações: não trata a hipertensão intracraniana global, podendo manter sintomas como cefaleia. 

3. Stent de seio venoso

Nos últimos anos, a identificação de estenoses venosas em muitos pacientes com HII levou ao uso de stents endovasculares para restaurar o fluxo normal.

  • Vantagens: técnica minimamente invasiva, melhora significativa da pressão intracraniana e da visão em pacientes selecionados. 
  • Limitações: ainda não há consenso universal sobre os critérios de indicação, e o procedimento requer monitorização hemodinâmica e anticoagulação subsequente. 

Papel do neurocirurgião

O neurocirurgião é essencial para avaliar qual técnica oferece o melhor benefício em cada paciente. Muitas vezes, a decisão é feita em conjunto com neurologistas e oftalmologistas, levando em conta a gravidade do papiledema, a velocidade de progressão da perda visual e a resposta ao tratamento clínico.

Com os avanços em técnicas endovasculares e no acompanhamento pós-operatório, a tendência é que o manejo cirúrgico da HII seja cada vez mais personalizado, garantindo preservação da visão e qualidade de vida.

Conclusão

A cirurgia na HII não é a primeira linha de tratamento, mas desempenha um papel fundamental nos casos graves ou refratários. Derivações de LCR, fenestração da bainha do nervo óptico e stents venosos são ferramentas complementares que, quando bem indicadas, oferecem aos pacientes a chance de manter a visão e controlar os sintomas. O acompanhamento próximo com equipe especializada continua sendo a chave para o sucesso.

Referências

  • Sinclair AJ, Kuruvath S, Sen D, Nightingale P, Burdon MA, Clarke CE. Cerebrospinal fluid diversion in idiopathic intracranial hypertension: complications and outcomes. Br J Neurosurg. 2011;25(5):585–592. 
  • Kalyvas AV, Hughes M, Koutsarnakis C, Lee AG, Hodge CJ, Elhabashy H, Ameen S, Alvis-Miranda H, Jabbour P. Surgical management of idiopathic intracranial hypertension: a systematic review and meta-analysis. Acta Neurochir (Wien). 2021;163(4):1113–1127. 
  • Biousse V, Bruce BB, Newman NJ. Update on the pathophysiology and management of idiopathic intracranial hypertension. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2012;83(5):488–494. 
  • Starke RM, Crowley RW, Liu KC, Jabbour PM. Venous sinus stenting for idiopathic intracranial hypertension: a review of the literature. J Neurointerv Surg. 2015;7(8):692–700.

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