Como neurocirurgião, vejo com frequência pacientes que convivem por meses com sintomas de estenose de canal cervical—também chamada de mielopatia cervical degenerativa (MCD)—até terem o diagnóstico correto. Reconhecer precocemente os sinais de alerta é essencial para evitar danos permanentes à medula espinhal e preservar a qualidade de vida.
O que é estenose de canal cervical?
É o estreitamento do canal da coluna no pescoço, causado por desgaste de discos, ligamentos e articulações (osteofitose, hipertrofia do ligamento amarelo, protrusões discais). Esse estreitamento comprime a medula espinhal, levando a disfunção neurológica progressiva. Diferente da radiculopatia (compressão de raiz nervosa com dor irradiada), a mielopatia compromete a medula e pode avançar de forma insidiosa.
Quem tem maior risco?
Geralmente ocorre a partir da quinta década de vida, com histórico de artrose e alterações degenerativas da coluna. Traços congênitos (canal cervical estreito), trabalho repetitivo e microtraumas ao longo dos anos aumentam a probabilidade.
Sinais de alerta que não devem ser ignorados
- Desajeito nas mãos: dificuldade para abotoar camisas, manusear talheres, escrever ou digitar; queda de objetos.
- Alteração da marcha e do equilíbrio: passos mais curtos, sensação de “pernas pesadas”, tropeços e quedas recorrentes.
- Dormência/choque nos membros: parestesias em mãos e pés; sinal de Lhermitte (choque ao fletir o pescoço).
- Fraqueza progressiva em braços e/ou pernas.
- Sinais piramidais no exame neurológico: hiperreflexia, sinal de Hoffmann, Babinski e clônus.
- Transtornos esfincterianos (urgência urinária, retenção, constipação) em casos mais avançados.
A presença desses achados, especialmente marcha alterada + perda de destreza manual, é altamente sugestiva de comprometimento da medula cervical e exige investigação imediata.
Como confirmar o diagnóstico?
A ressonância magnética (RM) da coluna cervical é o exame de escolha: mostra a compressão medular, a reserva do canal e sinais de sofrimento da medula (hipersinal em T2). A avaliação clínica detalhada, somada a escalas de gravidade (como mJOA), ajuda a estratificar o risco e guiar a conduta.
Por que o diagnóstico precoce importa?
A MCD tende a progredir em degraus: períodos de estabilidade intercalados com pioras súbitas. Quanto mais cedo se interrompe a compressão da medula (quando indicada), melhores os resultados neurológicos e menor a chance de sequelas permanentes.
Quando procurar um neurocirurgião?
- Sinais persistentes descritos acima (mãos desajeitadas, quedas, marcha insegura).
- Piora progressiva da força, sensibilidade ou equilíbrio.
- Evidência de compressão medular em exames de imagem.
Tratamento em linhas gerais
- Casos leves e estáveis podem ser acompanhados de forma individualizada, com educação postural, analgesia e reavaliação clínica rigorosa.
- Mielopatia moderada a grave, ou progressiva, geralmente indica tratamento cirúrgico para descompressão da medula (abordagens anteriores como discectomia/fusão, ou posteriores como laminectomia/laminoplastia, conforme o padrão de compressão e alinhamento cervical). O objetivo é parar a progressão e otimizar a recuperação neurológica.
A escolha da técnica depende do número de níveis acometidos, alinhamento sagital, comorbidades e experiência da equipe. O seguimento pós-operatório com fisioterapia e reabilitação direcionada potencializa os ganhos funcionais.
Mensagem prática
Se você percebe perda de destreza nas mãos, instabilidade ao caminhar, quedas ou sinais neurológicos persistentes, não espere: a estenose de canal cervical tem tratamento eficaz, e a intervenção oportuna é determinante para preservar a função.
Referências
- Fehlings MG, et al. A Clinical Practice Guideline for the Management of Patients With Degenerative Cervical Myelopathy. Global Spine Journal. 2017.
- Davies BM, et al. Degenerative cervical myelopathy. BMJ. 2018.
- Milligan J, et al. Degenerative cervical myelopathy: diagnosis and management in primary care. CMAJ. 2019.
- WFNS Spine Committee. Recommendations for Cervical Spondylotic Myelopathy. 2019.
- Donnally CJ III, et al. Cervical Myelopathy. StatPearls (updated 2023).
- Hilton B, et al. Route to diagnosis of DCM in the UK: a cross-sectional study. BMJ Open. 2019.


