A síndrome do túnel do tarso é uma forma de “aperto do nervo” no tornozelo, geralmente do nervo tibial posterior e/ou de seus ramos (que levam sensibilidade e parte do controle motor para a planta do pé). Como neurocirurgião, eu costumo explicar assim: é uma neuropatia compressiva periférica — parecida no conceito com o túnel do carpo na mão, só que no tornozelo.
A cirurgia tem um objetivo claro: descomprimir o nervo e, quando existe, remover a causa do aperto (um cisto, varizes, fibrose pós-trauma, alterações ósseas, etc.). O ponto-chave é que nem toda dor plantar é túnel do tarso — e isso impacta diretamente o resultado.
1) Quando a cirurgia é indicada
Em geral, a indicação cirúrgica fica mais forte quando dois pilares se confirmam:
A) Sintomas compatíveis e bem localizados
Os sintomas mais típicos incluem:
- queimação, formigamento, choque ou dormência na planta do pé, às vezes irradiando para os dedos;
- piora com caminhada/ficar em pé e, em muitos casos, à noite;
- dor ao “percutir” o trajeto do nervo atrás do maléolo medial (a “bolinha” interna do tornozelo), produzindo um sinal de Tinel positivo.
B) Falha do tratamento conservador ou risco neurológico
A cirurgia costuma ser considerada quando:
- houve tentativa consistente de tratamento conservador (calçado, palmilha/órtese, fisioterapia, ajuste de carga, manejo de inflamação, eventualmente infiltração), e não houve melhora sustentada;
- existe causa mecânica clara comprimindo o nervo (por exemplo: gânglio/cisto, varizes, osteófitos, fibrose pós-trauma), especialmente quando confirmada por imagem;
- há sinais de comprometimento neurológico progressivo (mais raro, mas importante): perda sensitiva crescente, fraqueza de músculos intrínsecos do pé, ou dor neuropática cada vez mais limitante.
Dica clínica importante: quando a equipe consegue identificar a causa do aperto (lesão ocupando espaço, trauma bem caracterizado), a chance de um bom resultado tende a ser melhor do que nos casos “idiopáticos” (sem causa definida).
2) O que é feito na cirurgia (em linguagem leiga)
A cirurgia mais comum é a liberação/descompressão do túnel do tarso.
De forma simples:
- Faz-se uma incisão na parte interna do tornozelo, próxima ao “osso do tornozelo” (maléolo medial).
- O cirurgião abre cuidadosamente a estrutura que forma o “teto” do túnel (o retináculo flexor), que é como uma “faixa” que pode estar comprimindo o nervo.
- O nervo tibial e seus ramos são identificados e liberados ao longo do trajeto, reduzindo pontos de estrangulamento. Em alguns casos, também é necessário liberar estruturas fasciais próximas que podem comprimir ramos do nervo.
- Se existir algo comprimindo o nervo (cisto, varizes, espessamentos, fibrose), isso é tratado junto — porque só “abrir o túnel” e deixar a causa ali pode diminuir o benefício.
Existem técnicas abertas (mais tradicionais) e abordagens minimamente invasivas/endoscópicas em casos selecionados. A escolha depende de: anatomia, suspeita de lesão ocupando espaço, cirurgias prévias, experiência da equipe e perfil do paciente.
3) Como é a recuperação: o que esperar semana a semana
A recuperação varia bastante conforme:
- técnica (aberta vs minimamente invasiva),
- presença de lesão ocupando espaço,
- tempo de sintomas antes da cirurgia,
- comorbidades (ex.: diabetes/obesidade),
- e se é primeira cirurgia ou revisão (reoperações costumam ser mais desafiadoras).
Primeiras 2 semanas
- Fase de controle de dor e inchaço: elevação do pé, repouso relativo, cuidado com curativo.
- O cirurgião define a estratégia de apoio: alguns protocolos usam proteção com bota e apoio progressivo; em outros, pode haver período sem apoiar (principalmente quando a ferida precisa de mais proteção).
- Retirada de pontos costuma acontecer por volta de 10–14 dias, quando a cicatrização permite.
2 a 6 semanas
- A maioria dos pacientes entra na fase de ganhar mobilidade e tolerância ao apoio.
- Fisioterapia (quando indicada) foca em: mobilidade do tornozelo, redução de edema, dessensibilização do nervo, fortalecimento e retorno gradual à marcha.
6 a 12+ semanas
- Retorno progressivo a atividades mais exigentes.
- Atividades de impacto e esporte costumam exigir liberação individual — o nervo é “lento” para se recuperar.
Um ponto que evita frustração
Mesmo quando a cirurgia é bem indicada e tecnicamente correta, o nervo pode levar meses para “acalmar”. Em neuropatias compressivas, é comum ver:
- melhora inicial da dor mecânica,
- e melhora gradual de queimação/dormência ao longo de 3 a 12 meses, dependendo do grau de sofrimento do nervo antes da cirurgia.
4) Quando posso voltar a dirigir, trabalhar e treinar?
Isso depende do pé operado, da dor, do tipo de trabalho e de como está o controle neurológico.
Em termos práticos (médias usuais, não regras):
- Dirigir: quando você consegue frear com segurança e não está usando medicações que sedam (muitas vezes entre 2 e 4 semanas, mas pode variar).
- Trabalho sedentário: frequentemente entre 1 e 3 semanas, se o deslocamento for seguro e houver possibilidade de manter o pé elevado parte do tempo.
- Trabalho físico/em pé o dia todo: pode exigir algo entre 6 e 10 semanas (às vezes mais).
- Esporte/impacto (corrida): frequentemente 8 a 16 semanas, com progressão e critérios funcionais.
5) Resultados esperados: qual a chance de melhorar?
A literatura mostra variação grande nos resultados, porque a síndrome do túnel do tarso tem múltiplas causas e o diagnóstico pode ser confundido com outras dores do pé. Ainda assim, alguns padrões se repetem:
O que aumenta a chance de um bom resultado
- Causa definida (por exemplo, cisto/gânglio, varizes, trauma bem estabelecido);
- História mais curta de sintomas (quanto menos tempo o nervo ficou comprimido, melhor);
- Sinal de Tinel positivo antes da cirurgia;
- ausência de cirurgias prévias no local (cirurgia de revisão tende a ter pior desempenho).
O que pode reduzir a chance de melhora completa
- casos idiopáticos (sem causa clara);
- comorbidades como diabetes e obesidade;
- dor plantar com múltiplos geradores (ex.: coexistência com fascite plantar, radiculopatia, neuropatia periférica);
- reoperações por falha de descompressão prévia, fibrose e aderências.
Em termos de números, revisões e séries clínicas descrevem taxas de sucesso amplas (há estudos com bons resultados em parte relevante dos pacientes), mas não existe “promessa” universal: o resultado depende muito de seleção do caso + correção da causa + tempo de compressão.
6) Sinais de alerta no pós-operatório: quando procurar ajuda imediatamente
Procure sua equipe (ou urgência) se ocorrer:
- febre, calafrios, mal-estar importante;
- vermelhidão que se espalha, calor local, pus, mau cheiro no curativo;
- dor fora do esperado que piora rapidamente ou não melhora com medidas orientadas;
- inchaço importante na panturrilha, dor na panturrilha, falta de ar (alerta para trombose/embolia);
- dedos muito frios, pálidos ou arroxeados;
- piora neurológica: dormência que aumenta de forma significativa, perda de força nova, dificuldade de mexer dedos.
Fechamento
A cirurgia do túnel do tarso é, essencialmente, uma cirurgia de descompressão nervosa. Ela tende a funcionar melhor quando:
- o diagnóstico está bem sustentado (e outras causas de dor plantar foram excluídas),
- há falha do conservador,
- existe um alvo claro a ser liberado/removido,
- e o nervo não ficou comprimido por tempo prolongado.
Se você for transformar isso em conteúdo de blog, uma boa mensagem final é: “não é uma cirurgia para ‘qualquer dor no pé’; é uma cirurgia para um nervo comprimido — e quanto melhor a seleção do caso, melhor o resultado.”
Referências:
- Rodríguez-Merchán EC, Moracia-Ochagavía I. Tarsal tunnel syndrome: current rationale, indications and results. EFORT Open Reviews. 2021;6(12):1140–1147. PMC
- Vij N, et al. Clinical Results Following Conservative Management of Tarsal Tunnel Syndrome Compared With Surgical Treatment: A Systematic Review. Orthopedic Reviews. 2022. orthopedicreviews.openmedicalpublishing.org
- de Magalhães MJS, et al. Surgical Treatment Compared to Conservative Treatment in Tarsal Tunnel Syndrome: A Systematic Review. (Thieme/Revista). 2022. Thieme Connect
- Reichert P, et al. Results of surgical treatment of tarsal tunnel syndrome. (Foot and ankle surgery/orthopedic journal). 2015. ScienceDirect
- Sung KS, Park SJ. Short-term operative outcome of tarsal tunnel syndrome due to benign space-occupying lesions. Foot & Ankle International. 2009;30(8):741–745. PubMed
- Gkotsoulias EN, Simonson DC, Roukis TS. Outcomes and safety of endoscopic tarsal tunnel decompression: a systematic review. Foot & Ankle Specialist. 2014. PubMed
- Raikin SM, Minnich JM. Failed tarsal tunnel syndrome surgery. Foot and Ankle Clinics. 2003.


